segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Triunfo da cultura popular: é lançada biografia de Clementina de Jesus Por: Marina Bastos (marina@abcdmaior.com.br)

O que era para ser “apenas” um Trabalho de Conclusão de Curso da faculdade de jornalismo ganhou proporções muito maiores. Isso porque o quarteto de jornalistas responsável pela pesquisa se deparou com uma história rica, carregada de ancestralidade, e ainda pouco explorada, a vida e obra da cantora de samba Clementina de Jesus. Surgia assim o livro-reportagem Quelé- A voz da cor: biografia de Clementina de Jesus, lançado pelo selo Civilização Brasileira, do Grupo Editorial Record. O nome de Clementina apareceu durante a escolha do tema do TCC, defendido na Universidade Metodista, em São Bernardo. Unidos pela paixão por cultura popular, os jornalistas Felipe Castro- que foi jornalista do ABCD MAIOR entre os anos de 2014 e 2016- Janaína Marquesini, Luana Costa e Raquel Munhoz chegaram a cogitar outros nomes. Mas Janaína trouxe à tona sua experiência com o disco Canto dos Escravos, de Clementina, lançado em 1982 e que faz uma releitura dos cantos dos negros escravizados de São João da Chapada, região de Diamantina (MG), no começo do século 20. “É é um disco histórico e importante até para a antropologia brasileira, para as pessoas que estudam a escravidão no Brasil, é um documento e tanto. E sonoramente ele é muito rico, só vozes e atabaques, um disco diferente, bruto, intrigante demais”, disse. O TCC- que obteve nota máxima na banca e dois prêmios da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação- não tinha, ainda, intenção de ser uma biografia. Primeiro por conta do pouco tempo para concretizar um trabalho tão audacioso, e depois, pela falta de registros da obra de Clementina, conforme contou Felipe Castro: “Membros do corpo docente da Metodista temiam que a pesquisa se perdesse por falta de informações disponíveis. Só depois de muita insistência, e de reunirmos bibliografia consistente sobre temas tangenciais (livros sobre a formação do samba, do carnaval, do Rio de Janeiro da primeira metade do século 20, biografias de ex-companheiros de Clementina como Cartola e Paulo da Portela) é que convencemos os professores e conseguimos a aprovação do tema. O TCC foi um capítulo muito importante e ajudou demais alicerçar o nosso trabalho, servindo de base para a biografia que chega agora”. Cinco anos de pesquisa A pesquisa- realizada entre 2011 e 2016- contou com mais de 40 idas ao Rio de Janeiro, pilhas de livros lidos, idas ao museu, mais de 60 entrevistas e consulta a centenas de edições de jornais impressos. As entrevistas foram fundamentais neste processo, como lembrou Raquel Munhoz, que destacou Hermínio Bello de Carvalho, poeta, produtor e compositor responsável por levar Clementina à carreira artística. “Não foi fácil conquistar a confiança do Hermínio, mas assim que conseguimos isso foi um adianto e tanto. Ele nos colocava em contato com pessoas importantes e abriu muitas portas. Depois, podemos dizer que o pesquisador e jornalista Sérgio Cabral (pai do ex-governador do Rio) também foi crucial nesse sentido, nos cedeu o acervo e contatos. E tantas outras pessoas que, à medida que foram confiando na seriedade do nosso trabalho, nos deram entrevista ou indicaram outros entrevistados. Nisso, conseguimos entrevistar gente do quilate de Paulinho da Viola, Milton Nascimento, Caetano Veloso, Martinho da Vila, Beth Carvalho, Paulo César Pinheiro e os agora finados Naná Vasconcelos e Fernando Faro”. LPs de Clementina eram tradução fiel da diversidade musical no País A maior dificuldade dos autores foi desbravar a vida de Clementina de Jesus no período anterior a 1964. “Como Clementina nasceu em 1901 e só foi inserida no meio artístico em 1964, ficou 63 anos praticamente ‘em branco’ nas páginas dos jornais, isso nos motivou a diversificar nosso trabalho para não depender apenas deles”, contou Felipe Castro. As informações não estavam no Google, era preciso cruzar dados. “Procuramos amigos e ex-vizinhos nos bairros onde ela morou ou trabalhou, como o Engenho Novo e o Grajaú (onde trabalhou como empregada doméstica), além do morro da Mangueira, onde Albino Pé Grande, seu marido, viveu. Com tamanha coleta de material, fomos comparando as informações, até conseguirmos, por exemplo, definir em qual ano ela conheceu o marido, em qual ano ela casou, em que época ela esteve na Portela, em que época ela esteve na Mangueira, quando a família dela chegou ao Rio vindo de Valença (interior do Rio, Vale do Paraíba fluminense) e por aí vai”, elencou Janaina. Clementina frequentou ambientes onde o samba e o carnaval germinaram no Rio de Janeiro. Foto: DivulgaçãoClementina frequentou ambientes onde o samba e o carnaval germinaram no Rio de Janeiro. Foto: Divulgação A trajetória “conhecida” de Clementina de Jesus, por si só já renderia uma boa história: era neta de escravos, negra, empregada doméstica e lançada artisticamente aos 63 anos de idade. “Mais do que isso, ela contrariava o padrão estético e até artístico que dominava sobre as cantoras brasileiras, tinha o canto contralto, voz rouca, forte, algo muito diferente, muito ancestral”, disse Luana. “Fomos além e descobrimos outras coisas interessantes a respeito. Descobrimos que ela cantava coisas que levava na memória, cantos de sua mãe, de seu pai, que ela ouvia quando era garota; sabia de cor inúmeras cantigas de trabalho, curimas e lundus, cantos ancestrais que levava consigo”, completou. Clementina foi uma das maiores intérpretes de samba da história, e nunca havia sido retratada em uma biografia, algo que impulsionou o grupo a mergulhar em sua história. A pesquisa mostrou, por exemplo, que ela, ainda anônima, frequentou ambientes onde o samba e o carnaval praticamente germinaram no Rio de Janeiro. “Pulou carnavais de rua com Noel Rosa nos anos 1920 e 1930, participou do grupo de pastorinhas de Heitor dos Prazeres, esteve na Portela na época da fundação da escola de samba e mais tarde frequentou a Mangueira dos anos 1940 e 1950, ficando próxima de gente como Cartola, Nelson Cavaquinho e Carlos Cachaça. Com todo esse patrimônio imaterial próprio, Clementina saía por aí cantando coisas e coube a Hermínio Bello de Carvalho assegurar de onde vinham aqueles cantos. E assim os LPs de Clementina de Jesus eram riquíssimos, a tradução mais fiel da diversidade musical do país”, afirmou Felipe Castro. Lançamento de ‘Quelé- a voz da cor: Biografia de Clementina de Jesus' Sexta-feira (10/02), das 19h às 21h30 na Livraria da Vila (rua Fradique Coutinho, 963, Pinheiros- São Paulo). Entrada gratuita. O livro é vendido a R$ 49,90. http://www.abcdmaior.com.br/materias/cultura/triunfo-da-cultura-popular-e-lancada-biografia-de-clementina-de-jesus

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